Cotas Raciais e a Democracia Escandalizada
Encerrou-se ontem, no auditório da Faculdade de Educação da UFRGS, o ciclo de eventos Diversidade na Universidade, promovido pelo GT de Ações Afirmativas do dia 27 ao 31 de março. Compareci à última pauta, o painel "Debate sobre sistema de cotas étnico-raciais". Na mesa, os professores Fernando Becker (FACED/UFRGS) e José Carlos dos Anjos (IFCH/UFRGS) afirmaram a polarização das posições sobre cotas dentro da academia; junto deles, os debatedores Osvino Toillier (do SINEPE-RS, Sindicato dos Estabelecimentos do Ensino Privado) e Onir Araújo (do MNU, Movimento Negro Unificado) defenderam os pontos de interesse das entidades que cada qual representa. Conversa importante, já que oportunizou a exposição pública das virtudes e vicissitudes dos partidos em questão e, na esteira, algum esclarecimento acerca estrutura geral da proposta.
O básico: em qualquer dilema político, partidários pró e contra devem ter vistas para as conseqüências sociais amplas de se decidir por uma coisa ou por outra. Esse, contudo, não é um aspecto problemático, senão o lugar de acordo para toda disposição política. O que principia a diferenciar boas de más decisões não é esse fundo comum de projeção do futuro, mas as percepções distintas do cenário presente (e as motivações para vê-lo dessa ou dessa forma), sobre o qual se dão tais decisões; e, igualmente, a variação da capacidade em discriminar seus antecedentes. Nesses quesitos, prevaleceram ontem os defensores do regime de cotas raciais. Como Onir Araújo, defendo não a atual proposta que destina, dentro dos 50% assegurados para egressos de escolas públicas, sub-cotas para negros e índios, mas a aprovação de um sistema de cotas diretas para negros e pardos.
Em todo caso, toda a polêmica se organiza em torno do escândalo do desvelamento. Pois qual conservador, tímido ou assumido, poderia conviver com uma exposição institucionalizada da fraude que é a idéia de uma plácida e coesa democracia racial brasileira?
Nas próximas postagens, tentarei apresentar, de maneira resumida e esquemática, tanto os pressupostos invocados para sustentar a posição anticotas, quanto a justificativa pró-cotas e a recusa daqueles pressupostos (nessas últimas, farei essencialmente resumir a primeira fala do prof. José Carlos dos Anjos na noite do debate).
2 comentário(s):
Este é um debate importante, Marden. Muito bom tu estar apresentando e relatando argumentos pró e contra o sistema de cotas.
Que tal deixar claro em resumo, antes da exposição, aonde tu quer chegar? Sei lá, em teoria, ao contrário do que rola em ficção, é bom saber antes o final.
Abraço!
Olá, sou Fábio Malini, sou professor da Federal do Espírito Santo... Aqui estamos debatendo tb a mesma questão.
E a coisa virou lutas de classes.
Fábio
PS: tenho um blog:jornalismodigitalufes,blogspot.com
Lá tem relatos sobre os nossos dilemas.
Postar um comentário